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Entrevista a Renata Santos Machado: "Ter gosto não chega"

Designer de interiores Renata Santos Machado sentada à secretária com computador, em ambiente de trabalho com parede em pedra natural ao fundo.

Written by

Renata Santos Machado

Published on

27 Apr 2026

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Ao longo de mais de duas décadas de trabalho, a designer de interiores Renata Santos Machado habituou-se a entrar em casas onde “tudo parece resolvido, até se perceber que não está”. É neste primeiro olhar, rápido e treinado pela experiência, que começa a estruturar aquilo que pode vir a ser.

Num momento em que o design de interiores deixou de ser um território restrito e passou a fazer parte do quotidiano, o trabalho tornou-se mais exigente. Exige método, controlo e decisões que evitam erros difíceis de corrigir.

Nesta entrevista, fala sobre o que realmente distingue um projeto bem resolvido, os erros mais comuns de quem tenta fazer tudo sozinho e a razão pela qual, na prática, “ter gosto nunca foi suficiente para estruturar um espaço”.

Quando entra pela primeira vez na casa de um cliente novo, como se manifesta a sua experiência acumulada em 24 anos nesta área?

Manifesta-se na forma como leio o espaço quase de imediato. Em poucos minutos consigo perceber o que não está a funcionar e identificar os pontos que realmente precisam de intervenção.

Enquanto o cliente explica o que gostaria de mudar, vou observando com mais atenção e projetando mentalmente o que aquele espaço pode vir a ser, onde faz sentido intervir, onde investir mais ou menos e que decisões terão impacto real no resultado final.

No final da visita, dou as minhas sugestões com base em toda a informação que recolhi.

O perfil de quem a contacta mudou ao longo dos anos? Quem são hoje os clientes do atelier?

Sim. Mudou tal como mudaram a sociedade, as sensibilidades, os gostos e a forma como encaramos a nossa vivência nos espaços. O meu trabalho é estar na primeira linha dessa evolução, para que o resultado seja sempre atual.

Hoje já não estamos a falar apenas de clientes com elevado poder aquisitivo. Houve uma clara democratização do design, impulsionada pela proliferação de lojas e fornecedores, pelo crescimento das plataformas online, pelos programas de televisão desta área e por marcas como a IKEA. O tema da casa entrou no dia a dia de diferentes gerações e estratos sociais.

As pessoas estão mais expostas, mais informadas e com mais referências. Conhecem marcas, designers e arquitetos. Em Portugal, ainda que de forma gradual, esse nível de consciência tem vindo a crescer. Existe hoje uma atenção muito maior ao design em geral e aos espaços em particular. Não só nos ambientes privados, mas também nos espaços públicos, na hotelaria e na restauração.

Hoje trabalhamos com um espectro muito mais alargado de clientes. Desde casais jovens em início de vida até clientes mais experientes, nacionais e internacionais. Procuram-nos tanto para projetos de remodelação como para projetos de decoração ou soluções integradas de design de interiores, com diferentes níveis de intervenção.

Ao mesmo tempo, são clientes mais exigentes e com menos tempo disponível. Sabem mais, mas também estão mais pressionados no seu dia a dia. Procuram alguém com experiência que os ajude a tomar decisões com segurança e que consiga assumir o processo com rigor, enquanto se mantêm focados na sua atividade profissional.

Designer de interiores Renata Santos Machado sentada à mesa em ambiente contemporâneo com amostras de materiais ao fundo

Para Renata Santos Machado, o erro mais comum não está nas peças que se escolhem. Está na ausência de um conceito antes de começar a comprar.

Portugal tornou-se um destino de luxo para compradores internacionais. O que é que isso muda no trabalho?

Pela experiência que tenho com clientes internacionais de diferentes geografias, não diria que isso altere de forma significativa o método de trabalho. Para além da diferença de língua, o processo mantém-se praticamente igual.

É evidente que cada país traz consigo hábitos, referências e códigos culturais próprios. Culturas diferentes trazem gostos diferentes, o que por vezes acaba por ser um ótimo desafio.

No entanto, essas diferenças são, regra geral, facilmente enquadradas nas primeiras conversas de briefing. Como cada projeto é sempre pensado de forma muito personalizada — em função das preferências, necessidades, perfil de vida, composição do agregado familiar e forma como o espaço vai ser vivido — o facto de o cliente ser estrangeiro não muda a base do trabalho. Acrescenta apenas mais uma camada de leitura, como qualquer outra característica individual.

Onde sinto uma diferença mais evidente, que pessoalmente valorizo, é na atitude perante o espaço. De forma geral, os clientes internacionais tendem a procurar mais diferença e identidade. Estão mais disponíveis para arriscar, para sair do previsível, para construir ambientes com carácter próprio. Já os clientes portugueses procuram soluções mais seguras, mais contidas e que poderiam pertencer a qualquer pessoa.

Qual é o erro mais comum de quem tenta gerir um projeto de interiores sem acompanhamento profissional?

Pelas conversas que fui tendo ao longo dos anos, sinto que a maioria das pessoas não tem uma noção real do que envolve um projeto de interiores. Não é apenas uma questão de gosto. É um processo exigente, muito detalhado, que depende de planeamento rigoroso e de muitas horas de trabalho. A experiência acumulada em vários projetos permite antecipar erros. Erros que se traduzem quase sempre em correções, substituições, atrasos e desvios de orçamento.

Como essa dimensão não é visível, muitas pessoas acreditam que conseguem resolver tudo sozinhas, nos seus tempos livres. O que acontece, na prática, é um processo de decisões isoladas. Escolhem um sofá, depois outra peça, depois outra. Gostam de cada elemento individualmente, mas quando olham para o conjunto, percebem muitas vezes que não funciona. Falta coerência, falta relação entre as peças. Diria que este é o erro mais comum: a ausência de um conceito estruturado e coerente antes de começar a comprar.

Há ainda outra consequência desse processo. Quando dão por isso, já consumiram grande parte do orçamento em duas ou três peças, quando esse valor deveria ter sido distribuído por todo o espaço. E há ainda um terceiro cenário, igualmente comum: há quem consiga juntar peças que funcionam bem entre si, mas sentem que não conseguem criar ambiência confortável ao espaço nem uma linguagem própria.

Design de interiores não é apenas ter bom gosto para escolher peças. O gosto, a sobriedade e a elegância são a última camada do projeto. Antes disso, existe um trabalho invisível, feito de método, técnica e decisões estruturais. Um espaço bem resolvido resulta de um sistema onde tudo está pensado: layout, proporção, circulação, iluminação, materiais, entre outros. Há muitas decisões invisíveis que sustentam o resultado final. É esse trabalho que faz a diferença entre um conjunto de peças bonito ou um espaço verdadeiramente bem resolvido.

Equipa do Atelier Renata Santos Machado em reunião a analisar projeto de um cliente.

No Atelier Renata Santos Machado, todos os imprevistos e erros de execução são assumidos e resolvidos pela equipa, garantindo controlo e tranquilidade ao longo de todo o projeto.

Já trabalhou em espaços assinados por grandes arquitetos onde o interior claramente não estava à altura. O que acontece quando o design de interiores não respeita a arquitetura?

Nunca me deparei com qualquer situação semelhante, mas já vi isso acontecer algumas vezes.

A arquitetura nasce antes dos interiores e da decoração. Define um ADN, seja ele mais contemporâneo, mais tradicional, mais minimalista ou mais expressivo. Esse ADN estabelece uma linguagem e um conjunto de códigos que dão identidade ao espaço. O design de interiores deve sempre dar continuidade a essa base, respeitando e reforçando essa linguagem para que o resultado final seja equilibrado e consistente.

Quando isso não acontece, quando a decoração e os acabamentos seguem um caminho diferente daquele ADN, cria-se uma quebra evidente, uma espécie de ruído. O espaço perde ritmo, identidade e surge um desequilíbrio que é percetível. No fundo, tudo deixa de trabalhar no mesmo sentido, e isso traduz-se num espaço que não está verdadeiramente resolvido nem a funcionar como um todo.

Um projeto chave na mão é uma expressão muito usada. O que é que significa para si e o que é que não significa?

Para mim, um projeto chave na mão é assumir a responsabilidade total pelo espaço e pelo trabalho de forma a simplificar e aliviar ao máximo a vida do cliente. Em essência, significa trabalhar “por ele” mais do que “para ele”.

O cliente conta comigo para tratar de tudo o que o projeto exige, desde a pesquisa e seleção de materiais, contacto com fornecedores, desenhos e decisões técnicas, visitas à obra com todas as equipas multidisciplinares, compras e toda a logística necessária até estar tudo montado e perfeito no seu sítio, incluindo a coordenação de todas estas etapas necessárias para concretizar o resultado final.

O objetivo é claro: reduzir ao mínimo o impacto do projeto no dia a dia do cliente. Libertá-lo da complexidade, do tempo e da pressão que este tipo de processo exige. O cliente aprova as propostas e os investimentos, mas não entra na gestão operacional. Em vez de lidar com múltiplos interlocutores, decisões técnicas, prazos e imprevistos, tem um único ponto de contacto que organiza, coordena e executa tudo. Como se costuma dizer, um projeto chave na mão evita ao cliente “perder anos de vida”.

Os seus clientes aprovam, mas não gerem. Como é que isso funciona na prática quando algo corre mal?

Quando algo corre mal, a responsabilidade é sempre do atelier. Num projeto integral, há muitas coisas que podem correr mal. Existem sempre imprevistos que podem surgir por inúmeras razões: fornecedores, equipas de obra, prazos, logística. O que não muda é quem assume a responsabilidade de resolver.

Cabe-nos ultrapassar os obstáculos, encontrar soluções, corrigir o que for necessário e garantir que o projeto segue o seu curso sem comprometer o resultado final. Essa responsabilidade não é partilhada nem transferida para outra pessoa e estende-se ainda aos custos associados a essas correções.

No final, o que importa é que o espaço seja entregue ao cliente exatamente como foi pensado e aprovado. Sem desvios, sem problemas por resolver. É com esse compromisso e rigor que trabalhamos.

Designer de interiores Renata Santos Machado a trabalhar com cliente na seleção de materiais em ambiente de projeto contemporâneo

Renata Santos Machado considera que um projeto de interiores não começa na estética. Começa muito antes, com método, planeamento e decisões que são muitas vezes invisíveis.

O que responde a alguém que lhe diz: "Eu sei o que gosto, não preciso de ajuda"?

Há muitas pessoas que partem do princípio que não precisam de ajuda em design de interiores. Umas porque acreditam que têm gosto suficiente, outras porque receiam perder controlo sobre as decisões, outras ainda porque não fazem ideia da complexidade técnica e do nível de planeamento que está por trás de um projeto bem resolvido. Existe também a ideia de que é um processo simples, quase intuitivo, ou o receio de que o espaço perca identidade e se torne ”igual a todos os outros”.

Sempre que oiço que “não precisam de ajuda porque sabem o que gostam”, procuro esclarecer uma coisa muito simples: ninguém impõe nada no espaço de outra pessoa. O cliente valida todas as decisões, do início ao fim, e faz parte ativa do processo. O meu papel é enquadrar, estruturar e transformar aquilo que gosta num resultado coerente, equilibrado, funcional e bem executado.

Há depois toda uma dimensão invisível que quem está fora naturalmente desconhece. Um projeto de interiores não começa na estética, começa muito antes, com decisões técnicas, planeamento, orçamentação, compatibilizações, timings e coordenação. É aqui que a experiência faz diferença. Permite antecipar problemas, evitar erros comuns, controlar prazos e orçamentos, e tomar decisões mais informadas.

E há um ponto crítico que raramente é considerado: sem conhecimento de mercado, é muito fácil acabar por pagar mais do que se devia, escolher fornecedores menos válidos ou cair em mãos menos sérias. Saber onde comprar, quanto custa, o que faz sentido em cada contexto, é algo que só vem com prática. No fundo, não se trata de fazer mais, trata-se de fazer melhor e com menos margem de erro.

Gosto muito de trabalhar com clientes que já perceberam a real mais valia do nosso serviço. Pessoas que concordam que ter gosto não é suficiente para estruturar um espaço com coerência e equilíbrio nas suas várias dimensões. São esses clientes que tiram verdadeiro partido do serviço e com quem dá prazer trabalhar.

Qual é o momento de um projeto em que sente que o trabalho valeu mesmo a pena?

Quando há paixão, o trabalho é sempre feito com dedicação e muita entrega. Mas existe um momento que nos deixa as melhores memórias. Quando entregamos o espaço e o cliente está feliz porque sente que recebeu tudo o que desejava ou até que superou as suas expectativas. Quando sente que o espaço funciona, que a vivência é natural, que tudo está no lugar certo, que essa alegria é partilhada pela família e por todos os que vivem o espaço.

Neste momento, sabemos sempre que o trabalho foi bem feito.

Se pudesse dizer uma coisa a alguém que está agora a considerar contratar um designer de interiores, o que seria?

O mais importante é perceber se existe um alinhamento claro ao nível da estética. Não tanto ao nível do estilo que se pretende, mas mais ao nível da linha de gosto: o estilo muda de projeto para projeto, em função do que cada cliente pretende para o seu próprio espaço. Quando se analisa o portfólio de um designer, mesmo com estilos diferentes, há sempre uma linguagem comum: uma forma de olhar, um mesmo critério, um sentido de equilíbrio. É por aí que se conclui se existe afinidade, ou não.

Depois, há um fator que é muitas vezes subestimado: a empatia que se sente com o profissional nas primeiras conversas e a confiança que nos transmite. Um projeto destes envolve muito tempo, proximidade, muitas decisões e, frequentemente, conversas pessoais sobre a forma como se vive o espaço. A empatia e confiança promovem uma boa relação de trabalho, o que é fundamental para se conseguirem bons resultados.

Existe também uma componente prática que não pode falhar. É fundamental perceber bem como o profissional trabalha: quais são as fases do projeto, os prazos, qual é o seu método, quais são as responsabilidades de cada parte, como funciona a componente financeira. Tudo deve ficar claro desde o início. É isso que evita ruído, mal-entendidos e desgaste ao longo do processo.

Há ainda um ponto que surge quase sempre como barreira à contratação de um profissional de design de interiores: o valor dos honorários. É natural que exista essa perceção inicial. Mas, muitas vezes, não se tem uma noção clara do que está incluído. O que está a ser contratado não é apenas um serviço criativo. É conhecimento acumulado ao longo de anos, experiência prática, capacidade técnica, rede de fornecedores, domínio de materiais e, sobretudo, a capacidade de antecipar e evitar erros que têm impacto direto no orçamento e nos prazos.

Por outro lado, um projeto integral implica meses de trabalho de uma equipa: tempo, dedicação e coordenação contínuas. E esse tempo é, na prática, tempo que o cliente não tem de investir. São também problemas que não tem de resolver, erros que não chega a cometer, dores de cabeça que nem chega a sentir.

Por fim, existe ainda uma dimensão menos evidente, mas muito relevante: a forma como um projeto bem desenvolvido e executado profissionalmente tende a valorizar o imóvel. Assim, quando se analisa o conjunto — tempo, risco, eficiência, resultado — os honorários deixam de ser um custo e passam a ser parte de um investimento mais amplo. Um bom profissional sabe onde faz sentido investir, onde é possível otimizar e como equilibrar o orçamento para obter o melhor resultado possível.

Questionário de Proust — Renata Santos Machado

Qual é a sua maior qualidade?

Diria que a minha melhor qualidade é a atenção às pessoas. Vivo muito consciente de quem está à minha volta e preocupo-me verdadeiramente com o seu bem-estar. Tenho uma preocupação natural para que todos estejam bem e faço o que está ao meu alcance para contribuir para isso.

Qual é o objeto que anda sempre consigo?

Uma cruz que trago sempre ao pescoço e que nunca tiro.

O que é que a faz levantar da cama de manhã?

O que me põe em movimento todos os dias é a responsabilidade sobre o compromisso com o que tenho em mãos. É uma ideia mais silenciosa que grandiosa: é o compromisso com as minhas obrigações, com as pessoas com quem trabalho e com os projetos que ainda não estão resolvidos. Gosto de saber que há sempre espaço para fazer mais e melhor.

O que é que nunca perdoa? Numa pessoa ou num espaço?

Mentira e falta de empenho a fazer seja o que for. Nada na vida se consegue sem trabalho e não gosto de ver quem faz as coisas em cima do joelho, sem dedicação, sem esforço e sem brio.

Se não fosse designer de interiores, o que seria?

Sou gestora de formação pelo que, em bom rigor, já exerço essas duas atividades há muito tempo. Confesso que não me vejo a fazer outra coisa, mas gosto muito e interesso-me por tudo o que se relaciona com a psicologia do ser humano.

Uma casa que a marcou para sempre e porquê?

Ao longo de 24 anos de trabalho, houve vários projetos que naturalmente me marcaram, pela aprendizagem, pelo processo, pelas circunstâncias, pelos clientes. É difícil escolher apenas um.

Destacaria um restaurante que desenvolvi na Ilha de Luanda, há cerca de dez anos. Foi o primeiro projeto de restauração, um espaço 100% no exterior, com uma escala muito exigente e um nível de complexidade elevado: a distância, o contexto cultural, o clima, tudo acrescentava camadas de dificuldade que me foram pondo à prova.

Foi um desafio grande a vários níveis e talvez por isso mesmo tenha sido tão marcante. O resultado final foi muito bem conseguido e, mais do que isso, tem-se mantido sempre relevante e atual ao longo do tempo. No final fica a sensação boa de “missão cumprida”.

O material ou textura de que nunca se cansa.

Madeira e pedra.

O erro de decoração que vê repetido e que lhe custa ver.

A mistura de estilos menos bem conseguida. Misturar é fácil. Misturar bem tem mesmo muito que se lhe diga. Não vale tudo.

Uma regra de design que existe para ser quebrada.

Não sou fã de regras. Acredito que a única regra é não haver regras. Há gostos, há preferências, há necessidades específicas e o que mais importa é que a pessoa goste das opções que faz.

O que é que uma casa tem de ter para sentir que está verdadeiramente acabada?

Sentir-se um equilíbrio natural e uma boa energia no ar. Não notamos a falta de nada, não sentimos necessidade de acrescentar ou mudar nada. A circulação no espaço é fluida, natural e sem esforço. A escala e a proporção são as corretas. Tudo trabalha para a coerência geral do espaço.

Cada peça tem um contributo próprio para o todo e o todo apenas fica resolvido com aquele conjunto de peças. Tudo está na exata medida: faz falta se retirarmos ou fica a mais se acrescentarmos.



Renata Santos Machado

"A única regra é não haver regras"

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